terça-feira, 19 de junho de 2018

Conto de Copa 1: A mascote Gilvaneide

Há oito meses Rosalva assistia à chance de levar a filha pra Rússia: tavam atrás de uma criançada pra servir de mascote na Copa. Chamou logo Gilvaneide.

— Ô, Gil! Vem cá, nêga.
...
— Hum.
— Quer ir pra Rússia entrar mais Neymar no jogo?
— Quando???
— Mamãe inda vai fazer a inscrição, a McDonau que vai levar, torce aí.

Três meses depois e o resultado: Gilvaneide Leite Rosa entre os 30 nomes escolhidos. Quatro dias na Rússia, com um responsável, passagem, hotel, tudo pago. O bairro de Camalaú tinha a boyzinha mais famosa da cidade. Vô Patrocínio chega babava na Praça do Pau Mole: a netinha ia entrar com a seleção, com Neymar!

Mãe e filha viajaram três dias antes da abertura da Copa. Foram bem recebidas no país, translado em van, quarto no terceiro andar. Só deixaram o hotel pros ensaios da cerimônia.

— Estejam sempre sorrindo, ok, porque a câmera vai focar em vocês na hora do hino — dizia a produtora em três línguas.

No fim do ensaio Rosalva colou na mulher:

— Minha menina é doida pelo Neymar, tem como a senhora colocar ela mais ele?
— Mas ninguém aqui vai entrar com o Brasil, essa turma foi sorteada pros jogos de amanhã e sexta. Como ela se chama?
— Gilvaneide.

A produtora folheou a lista: — Gi, Gi... Vai entrar com a Arábia Saudita no jogo de abertura.

Rosalva bateu embaixadinha com o queixo, fez carreira pra apagar as amostrações no Facebook. Seu Patrocínio quando soube teve cólicas:

— As picanhas tudo comprada, meu deus!

A novinha só deixou de chorar no dia do jogo, onde seguiu pro estádio fechada em si. Entrou em campo com o atacante Mohammad Al-Sahlawi. Quando se viu no telão, Gil sacou a boca: deu língua pra 3 bilhões de pessoas.


Severino Figueiredo 

quarta-feira, 30 de maio de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 12: A greve, o boy do gás

I.

Cabedelo adiantou a fogueira em um mês. Quem tinha fome buscou ripa, empilhou madeira no quintal e tacou fogo - assentava uma panela por vez. Se tinha gás não fez bolo: só macarrão nissin, sardinha em lata e feijão congelado. Porque o fim da greve dos caminhoneiros não garantiria botijão tão cedo. A Paraíba depende de Pernambuco. O gás vem de Suape pra cá, daí prum esquema que só vai normalizar agora em junho.

II.

A falta de gás ocultou Jonilton - o entregador mais famoso da cidade. Há bem quinze dias era a manhã novinha e ele trepado em Honda Fan com os botijões na carona. Passava nas carreiras:

— Ó o gai! Ó o gai!

O povo devolvia o bordão, que pegou e fez o motoqueiro perder o nome. Na igreja mais a mulher era cumprimentado:

— Paz do senhor, gás!

Entrava nas casas descalço, o pano azul da farda, duro de não lavar, incensava o caminho à cozinha. Aqui pedia bucha e detergente: pra ensaboar a mangueira do fogão.

— Pronto, patrão, sem vazamento. É 65.

III.

A última notícia dá o botijão a 130 reais. A última imagem é da rua na janela à espera do cavaleiro de 11 cavalos.


Severino Figueiredo 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Baralho & Dominó

I

Por sobre a mesa: mãos,
aos pés da mesma pendem
vários paus de ancião.

Bate na mesa: mão,
na zorba box o pau
que não se mexe não.

II

Acolhe o que não sobe:
a Praça do Pau Mole.


Severino Figueiredo

domingo, 20 de maio de 2018

Operário

O canteiro de obras
tem vários tamanhos
e cores de zorba:

onde, dentro e morga,
a rola suada
por fora se coça.


Severino Figueiredo 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Etiqueta

Kátia saltou na Lagoa pelo meio da tarde. O corpinho roliço ancorado em bolsa cortava as testas das lojas com passos de pressa, assim abortados:

- Cartão C&A, senhora, basta RG e CPF, viu?
- Quero não, meu amor, já tenho cartão demais.
- Mas nos cartões C&A a senhora parcela em até 5 vezes...
- Quero nem em 10, meu anjo, hahaha.
- Mas deixe eu ver se a senhora tem limite pra compra.
- Nam, tô com pressa. Outra hora.
- Mas é rapidin...
- Não, porra! Abuso do carai. Vai aperrear a cadela da tua mãe, a mim mesmo não.

Kátia retomou o passo multidão adentro. Levava nas costas dois olhinhos esbugalhados.


Severino Figueiredo

Nome de personagem

Em 2015 eu criei a ANEABRA - Associação de Nomes Excluídos das Artes Brasileiras. Porque maioria das obras que eu lia, assistia, levava personagem com nome-havaianas: comum demais, de haver um bocado numa rua só. Era Maria, Pedro, Ana, João. Diego, Laura, José, Gabriela...

Nesse tempo eu não conhecia João Cabral e seu Severino retirante; só via Severino em nome de porteiro na Globo. Meu sonho era um Severino protagonista de Malhação. Nunca rolou. Peguei raiva. Decidi ir pro fight: minhas personagens só teriam nome plebeu.

Abri o bloco de notas do celular e comecei um arquivo de nomes underground. Os melhores terminam em "eide". Cleide, Josineide, Ivaneide. Outra boa é "ete". Josinete, Deusinete, Claudete. Pra nome de homem os que terminam em "aldo". Um nome legal é Juarez. Pense num menininho chamado Juarez. Você vai a um colégio e diz: "Chama Juarez aí pra mim". O cabra já sabe quem é. Agora chega lá e pergunta por Gabriel pra tu ver... O bicho olha pra tu e pergunta: "Gabriel de quê?".

Às vezes eu brinco: tomo um nome comum e potencializo ele. Aprendi com a escritora Raquel Fernandes. Ela pegou "Bruna", comum que só, e adicionou "Surfistinha".

Meu arquivo de nomes só faz esticar. Todo dia lembro de um nome da infância, encontro mais outro em conversa alheia. O último da lista é "Tércio", vice-presidente da ANEABRA.



Severino Figueiredo






domingo, 13 de maio de 2018

Dia das mães

Quando Cleiton abriu os olhos eram 10 da manhã. Foi da cama à pia, tirar remela e catinga. Mirando o vaso com a pica dura ouvia mãinha cantar Aline Barros. Daí à cozinha pra encontrá-la em avental, salgando bisteca pro churras de logo mais.

- Bom dia, meu amor! Cadê meu feliz dia das mães?
- Dia.
- Na boca da garrafa não, Cleiton. Seboseira, meu filho.
- Ah, mãe...

Ele apanha caneca, um pão - abre aos dedos.

- Olha a faca aí junto, menino.
- Já foi.

Mete salame e volta ao quarto.

- Depois vem aqui me ajudar a terminar, já já o povo chega.
- Hum.

Meia hora depois Cleide grita: - Ô, Cleiton, tem verdura aqui pra cortar, vinagrete pra fazer.

Não ouve resposta, grita de novo.
Vai ao quarto e dá com Cleiton no computador, de fones.

- Meu filho, venha dar uma mãozinha pra sua mãe, posso me virar em dez não.
- Já já.
- Mas é rapidinho.
- Tô ocupado, quando terminar eu vou.

Cleide pende a cabeça pro PC. Vê uma foto antiga dela com o filho, acima um texto que não alcança ler. Cleiton publica, fecha a aba e pega a toalha.

- Vou tomar banho.
- Pra que era aquela foto?


Severino Figueiredo

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Empatia

Iam trancados no consultório há bem meia hora. Atrás da mesa o analista olhava Vando, que dizia:

- É isso aí, doutor, sinto esse prazer especial nela. Ver o olho dela machucado. O que isso quer dizer, doutor?
- É o senhor mesmo que machuca?
- Sim, de murro. E quando tá desinchando eu dou outro por cima.
- E é apenas um olho?
- É, o esquerdo. O que tem a ver, doutor?
- Qual sua posição política, senhor Vando?
- De esquerda, doutor. Convicto!
- Hum.

O analista ri: - Veja, senhor Vando, o senhor não está sozinho no mundo.

Bota a mão direita pra perto do cliente:

- O senhor vê essa vermelhidão aqui? Então, eu também, hoje cedo antes de vir para cá. Fique em paz, homem.

Os dois se botam em pé, se apertam.

- É Ele livre ou não é?
- Com fé em deus! KKKK. Tchau, doutor.


Severino Figueiredo 

segunda-feira, 26 de março de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 11: O gari dos domingos

I.

Os garis de Cabedelo vestem azul – num pano véi grosso, duro igual pão dormido da padaria de Catolé. Junto da calça de elástico e da camisa manga curta, compõe a farda um sapato pé de ferro que muitos nem calçam. Elenita mesmo, não usa por conta das unhas:

– Eu pinto meus cambados duas vezes na semana, se eu uso essas ferraduras num tem esmalte que renda.

II.

Maioria desses peões trabalha de segunda a sábado: pendurado na traseira do caminhão, em cima da carreta de entulho, varrendo praças e ruas principais ou sapecando a cal o meio-fio; periodicamente um grupo vai à praia, mas pra catar má educação – saem com bem cinco sacos nos tambores. A prefeitura até que cede ônibus na manhã cedo e no fim da tarde: cata os catadores e depois os despeja nos pontos mais próximos de suas casas.

A minoria é Ademar, o gari dos domingos.

III.

Como o mercado daqui abre os sete dias da semana, alguém tem que largar o domingo pela metade pra jogar em caçamba o que a feira espirra. Por isso Ademar  desce de casa três da tarde: traz aos punhos um carro de mão Tramontina; pá e vassoura vêm deitadas na carroceria. O flamenguista acaba perdendo maioria dos jogos do time: porque no que vai, limpa e volta, Ademar usa bem umas quatro horas, pega o jogo já no fim. Vez que pergunta ao vizinho:

– Jogou bom ou ganhou na cagada?

O massa é que sendo domingo e não tendo fiscal, Deminha não veste azul. Vem é de roupa fresca e numa bota borrachuda que cobre metade da canela. Varre a área ao som de Reginaldo Rossi na caixinha de música pendurada no corrimão do carro.

E do jeito que vai nosso Mengão, Ademar, só na cagada mesmo.


Severino Figueiredo 

segunda-feira, 19 de março de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 10: Missa e caganeira



I.

A missa das crianças na Igreja Matriz de Cabedelo é em dia de domingo. Nove da manhã. Imprescindível pra quem faz catecismo – eu, como exemplo, há dez anos. Não ir implicava em carão da catequista no encontro do sábado seguinte. E tinha domingo que eu mesmo não botava os pés lá.

II.

Porque era melhor assistir ao Esporte Espetacular que ao padre; ouvir a Glenda Kozlowski chamar altas matérias do Clayton Conservani no Alasca; e ver os gols do Flamengo no jogo do sábado – nesse tempo não tinha Sky, eu nem sabia o que era Sportv. Vez em quando rolava uns amistosos de futebol de areia, de futsal – Falcão jogava pra caralho: tome quatro, cinco a zero na Argentina; meio mundo de caneta, lambreta, chapéu pra cima dos hermanos.

Querendo ou não a imagem da Globo sempre foi mais bonita que as de Band e Record. Criança não entende de golpe, de ditadura, pra ser anti-mídia. Tudo o que eu fazia era dizer à mãinha que minha barriga tava um embrulho só, caganeira batendo bem às oito horas do dia. Pia a conversa, e mãe caia direitinho:

– Vá pra cama que eu vou buscar o boldo.

E eu: – Não, vou me deitar na sala, lá é mais ventilado.

Botava no canal 7 e tava aceso o agouro.

III.

Daí assistia até o programa acabar – era o tempo certinho pro almoço. Aquele rango típico de domingo: feijão verde e arroz refogados, frango de forno, purê de batata e um copão de guaraná Kuat. O guaraná eu deixava sempre por último. Bebia numa leva só, todo acavalado: o arroto vinha nas alturas, tipo a hosana da missa que eu faltara.


Severino Figueiredo

segunda-feira, 12 de março de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 9: Kombi da morte

I.

Não é raro e o povo daqui morre. Como toda morte, dá seus lucros: à única funerária, aos coveiros e a uma Kombi branca do século passado.

A comunhão cabedelense em torno da morte é mais de curiosidade que compaixão: vida alheia é o pré-requisito pra dialética. Morrer em Cabedelo ainda é motivo de cochicho em porta de casa; morre-se pra que A, B e C opinem como o fato se deu, a que horas, e com que lágrimas choram os viúvos:

A) morreu dormindo, que a mulher foi chamar logo cedo pra tomar gagau e o cabra não abriu os olhos;
B) disseram que morreu envenenado de baiacu; almoçou o peixe, o bicho inchou lá por dentro e espetou intestino, reto, esses troços;
C) foi de queda de moto: tava sem capacete, só é o que dá; caiu ao meio-fio e a cabeça gorfou.


II.

Sei da morte pela boca da minha mãe, que soube de uma colega de trabalho, que ouviu do alto e bom som da Kombi branca. Esses veículos percorrem meia cidade anunciando o presunto: nome completo, filiação, apelido, ocupação, horários do velório e do sepultamento – tudo ao som de Roberto Carlos cantando a música “Nossa Senhora”. É a Kombi passar na rua pro povo baixar volume de TV, aguçar orelha e pôr a linguinha de fora pra ver se conhece ou não o ex-vivo.


III.

Mãinha, por exemplo, domingo desses: – Baixa essa porra aí pra eu ouvir o carro.

E a Kombi, com Roberto ao fundo:

NOTA DE FALECIMENTO! FALECEU ONTEM, ÀS 21H, O SENHOR JOÃO DE JOÃO, CONHECIDO COMO JOÃO. A FAMÍLIA, ENLUTADA, CONVIDA AMIGOS E PARENTES PARA O SEPULTAMENTO NO CEMITÉRIO DA CIDADE ÀS 16H DE HOJE.

Minha mãe faz que não conhece o defunto e pergunta se eu sim, respondo não e ela fecha: – Só pode ter sido coração, tá tendo muito por aí.


Severino Figueiredo 

terça-feira, 6 de março de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 8: Moto da galhofa

I.

Praia, Vitória, Serviços, Águia, Novo Horizonte, União, Miramar...: tudo nome empresarial, com operariado de pochete no cós e capacete no cotovelo; títulos de um empreendimento comum em Cabedelo: a moto-táxi.

II.

Esse clã do transporte alternativo brota do impulso. Tu, por exemplo, querendo montar uma, só é caiar faixa: bota número de contato sob o nome do grupo e mais ao canto o teu — o organizador. Daí é estendê-la no alto de um vão da rua, ou em praça mesmo, e esperar que o telefone não sossegue perante o dia.

MOTO-TÁXI HUMANITAS
                      (83) 4002-8922
                      Org.: Quincas Borba


A viagem na moto custa três contos de média, donde uma pequena fatia disso vai pro bolso de quem organiza. Tem quem cobre acima e abaixo do valor: pra levar macho, mulher — as crentes vão sempre de ladinho; pra deixar os de menor na escola e atrasados em emprego; vez até que leva coisa ilícita sem saber sabendo. Tudo em mais tranquilo tráfego, porque há pouca birra entre as camisas - tão sempre abertas à troca de componentes e a junções.

III.

Quem destoa nessa turma é Leleu: a moto-táxi de um homem só. Os diferenciais de Leleu são seu horário de funcionamento e sua disposição. É dentro de um macacão laranja da Petrobrás que ele bate o silêncio da madrugada cabedelense. De bunda numa CG Fan 125 cilindradas, traça a cidade de cima pra baixo: é o nosso Jason Statham de Carga Explosiva.

Dia desses, com pena de pagar o frete de uns livros do Estante Virtual, mandei Leleu buscá-los num sebo do Recife. Foi numa roda e voltou noutra, muito solícito: — Quanté que fica, Leleu?

E ele: — Seis conto mesmo, boy, três de ida e três de volta.


Severino Figueiredo 


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Dona M., Lavadeira, 1970

Vó casou foi cedo:
aos 15, já prenha.

Novinha, com Vô
meteu sob telha.

Vó não pôs pra fora
por ter o que tinha:

o credo em seu macho,
homem véi de 30.

Desde então que Vó,
trouxa de outras casas,

desde que tem 15
lava, enxuga e passa.


Severino Figueiredo

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 7: Trens raiz e nutella



I.

A principal linha férrea de Cabedelo é a que encanga a gente na cidade de Santa Rita — um trajeto com 12 estações dentre as quais 5 são em bairros nossos: Centro, Jardim Manguinhos, Poço, Jacaré e Renascer. O trem inda passa por Jampa e pela cidade de Bayeux antes de desovar de vez na terra da boa feira. Daí renova o bucho e retorna: um paranauê de segunda à sexta e de hora em hora que vai do bafinho da manhã à entrada da noite.

Aos sábados dá só em meio-dia pra no domingo vestir samba-canção.

II.

Maior parte da vida morei junto à estação do Centro. Minha descrição de trem era a de um trambolhão amarelo e pesado, primo-irmão de outro que tinha esmagado um boy conhecido meu. Agora mesmo vejo mainha comentando à época:

— Deu pra ver os miolos dele pra fora, inda bem que o meu não é de catar milho em bexiga de trem.

O trambolho pesado inda existe e corre, mas nos últimos anos passou a alternar viagem com um mais moderno: e azul.

O trem amarelo é aloprado. Quando chega ao pico de velocidade, sua lataria estala que nem os tambores das Calungas, num mesmo gingado de proa de navio pela goela da cidade. O azul não, o azul é mofino, cheio de frescura nas unhas. Quando pega no tranco bem que não se nota: é estável e refrigerado. O cabra viaja sem suar: é bom e não é, porque sovaqueira corre solta em ambiente fechado.

O trem amarelo já matou umas gentes descuidadas; já descarrilou, quebrou muro e meia dúzia de cavalos. O azul tem problema com lixo nos trilhos; além disso é menorzinho, num instante rompe a borda; tem letreiro digital e uma voz googlônica que alerta sobre a próxima estação:

— SENHORAS E SENHORES, PRÓXIMA PARADA: ÚLTIMA PARTE DO TEXTO.

III.

Ambos os trens custam a mesma coroa: 50 centavos pra ultrapassar roleta. Criança e idoso não pagam, nem há tarifa pra excesso de bagagem. Ambas as máquinas são preenchidas pelo mesmo tipo de gente. Tão lá farofeiros, trabalhadores e estudantes do IFPB; tão turistas e gente cheirando a Boticário e a suor; vendedores de Mentos e pastel de carne; e tá um cronista. Cada um na sua predileção: o amarelo por costume e o azul pela novidade.

A minha é ir num e voltar noutro.


Severino Figueiredo 

CRÔNICA DO CABEDELO 6: A solidão do vendedor de cocos

I.

A Rodovia Transamazônica foi concebida durante o regime militar do país, lá pela década de 70, sob as ventas do presidente Garrastazu Médici. Um projeto portador de gigantismo: são mais de 4000 km ligando a Paraíba à terra dos botos. No Google Maps dá pra ver o fio-terra que o Nordeste faz no Norte, porque o cabo da dedada começa no estado rubro-negro, na Paraíba de Zé Ramalho e deste Severino aqui: o quilômetro zero é em Cabedelo, o de número 4223 é em Lábrea, Amazonas.


II.

Transamazônica é o nome que mamãe deu, porque o de rua, o nome de guerra mesmo é BR-230; e no trecho que corresponde à cidade ainda botamos o nome de "Estrada de Cabedelo". A rodovia dá pra gente somente uns 13 km de seu corpo; e dá em reta, isto é, trepa com os carros e os nossos passos num constante papai-e-mamãe — vem daí o nome da principal linha de ônibus daqui: Cabedelo Direto.

Apois tá.

No ápice da construção da Rodovia, principalmente pras bandas do Norte, os trabalhadores tinham menos que a própria sombra pra acarinhar, só o cabo da enxada pra escorar a cabeça-de-pote suada. Isso porque os homens passavam meses longe de casa, das virilhas quentes das esposas, do aperreio dos pirralhos buchudos. Naquela época não tinha Samsung Galaxy e zap-zap só se for onomatopeia pras punhetas noturnas. A solidão comia a rapaziada até uma ida aqui e outra ali à cidadezinha mais próxima:

— E Felipinho, como tá? Passa aí pra ele que as fichas já já acabam.

III.

2018 e um isolamento recauchutado come as gentes na beira da mesma estrada — nas partes de cima do mapa ou aqui na ilha; das enxadas dos homens do DNIT aos braços cruzados em espera pelo coletivo; e nas tendinhas de coco espalhadas por ambos os lados dos nossos 13 km. Dezenas de homens e mulheres à sombra, em companhia só de um ou outro que estaciona pra beber coco a dois e levar uma garrafa a 8; à solidão em nome de seus Felipinhos.


Severino Figueiredo 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 5: Duas folias



I.

O carnaval de Cabedelo é modesto, dá pra botar numa só página de folha. Blocos de arrasto, com trio de fôlego e grupo da Bahia, ficaram pra trás. O que tem no agora é bloco médio de público e atração — guiado por orquestra de frevo ou pela banda que monopoliza os triozinhos daqui: a D'Baile, que sempre inicia os cortejos com "Faraó" e os encerra aos gritos de "minha pequena Eva".

Desses blocos, faço registro do dos cornos, do da terceira idade e do Banana's Baby — que põe a garotada pra quicar; tem bloco de time: com o Flanáticos, o Flufolia e o Frevasco; além dos bloquinhos de família e do popular Donzelas da Beira do Cais, onde os cidadãos de bem, em peruca e vestido, enchem o caneco.

No mais é correr pra folia de outras cidades ou tá por si na testa de casa: a mala do carro aberta, o som lá em cima, a mesa na calçada e uma mangueirinha por cima da parede. Quem não curte que se mude, ou escreva cronicazinha.

II.

É pertinente a discussão de blocos como o Donzelas e a sua caricatura das boyzinhas, mas não é o que venho digitar. É sobre dispersão, o pós-folia: do último estouro do repique pra frente, do que resta após a derradeira gaitada do sax.

Quem escreve isto já foi folião, já mexeu as dobrinhas pista à fora, e sabe que ainda sobram risadas e língua-em-língua por alguma hora. Mas chega o momento da canela fraquejar, pedir colchão porque amanhã tem de novo. Daí vêm silêncio e o que descansa na praça sob o sereno da madrugada: latinhas, caixinhas, camisinhas; cocos, tocos e cacos; amido, limão, garrafas, talco; copos e um ou outro corpo que arria ali mesmo.

III.

O descanso é interrompido de manhã cedinho — por três ou quatro homens que empunham o frevo mais famoso de todos: Vassourinhas. A outra mão rege tambor, o de lixo. Entram aí as camisinhas, os cocos, os limões e os copos. Exceto o corpo, que o sol levanta. Em uma hora o perímetro é todo limpo, o meio-fio volta ao de antes, a praça pronta pra mais tarde.

Aos três ou quatro homens, amanhã tem mais.


Severino Figueiredo 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 4: Alternativo



I.

Quem leu o texto 2 desta série de crônicas conhece um lado do transporte cabedelense. Por cima, mas conhece: que é o lado dos ônibus. Aqueles lá: 522, 5104, 5103 e o 5101.

Apois pronto. Tem vez que é o ônibus que atrasa; outra vez é o cabra mesmo que remancha no topete e deixa o ponteiro correr por mais; vez ainda que um empalha o outro: é dedo que não quer ser lido e porta do meio fechada. Pros dois primeiros casos há solução. Lá vem uma de buzina, limpa os ouvidos:

— João Pessoa! Vocês aí, João Pessoa?


II.

O carro desse travessão foi um Celta. Mas agora mesmo passou um Gol. Aqui vem um Uno cor de vinho, todo lascado: — João Pessoa! Lagoa! Integração?

Transporte alternativo é meio-fio em Cabedelo, tem que só a mulinga: de duas e quatro portas; preto, cinza, descascado; a gás e a empurrão; tem até Doblô — de um comilão que arrebata sete clientes de uma vez só. O preço da variedade equivale ao do ônibus — alguns arredondam logo pro próximo inteiro, outros deixam os centavos só de safadeza, num confronto implícito às empresas: é que esses carros são ilegais segundo quem manda-na-porra-toda. E tal afronta leva resposta na cara: tá lá a traseira do coletivo estampando a ilegalidade dos carros e a boa-nova dos cartões.

Sobre quem os dirige, parte tá aí só por um tempo, curando desemprego; outro punhado veste camisa: é motorista alternativo!, mesmo que ilegal — faz até cartãozinho com contato e serviços oferecidos; menos de uma pitada é mulher. Todos à mercê de faca no bucho, são alvos fáceis de assaltantes.

III.

Faca em goela só na de usuário, que na vez que diz sim pra pergunta lá de cima manda argumento:

— Melhor dar 4 conto a um pai de família que a essas empresas nojentas.


Severino Figueiredo

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 3: Ala-Ursa



I.

É metade de dezembro e já se ouve uma batucada lá por cima, vinda das bandas da estação. Mainha já assenta: — Vai começar a algazarra.

A meninada da rua apruma calção e se bota em esquina. Os repiques e surdos cada vez mais próximos são prévia da figura mais barulhenta do nosso verão. É a Ala-Ursa — ponho assim pra mode os mineirinhos caçarem no google; porque, pro povo daqui, Ala-Ursa tem nome mais prático.

Diz de novo aí, mãe: — Vai começar o fuzuê dos Ursos!

II.

Em maioria, o Urso do centro de Cabedelo é terceirizado. Vem de trem: dos bairros mais distantes ou de João Pessoa — grande produtora de Ala-Ursas graças ao Carnaval Tradição (que ilustra o texto), onde os Ursos, à frente de sua baterias, animam o povo num vão de avenida e disputam prêmio.

Por aqui, eles percorrem meio mundo de ruas e vez em quando descem à praia — um batente diário que dura maioria do verão e rende uns trocadinhos, porque já diz a cantiga: O URSO QUER DINHEIRO E QUEM NÃO DÁ É PIRANGUEIRO!

Mas aí vem uma leitora atenta e me desfere rasteira: — Ô Severino, como é labuta diária se o trem num corre em dia de domingo?

Eu, de gingado, desvio do golpe e meto a última miçanga no texto.

III.

O pouco glamour dos Ursos ou dá medo ou enfia encanto na criançada. Deixando o primeiro grupo de lado, que não tem motivo pra sair de casa, dou mão às crianças do segundo punhado.

Não tendo instrumento nem fantasia de meses de confecção, elas arranjam latas, paus e garrafas e saem desafinando e desafiando sobre o calçamento de Cabedelo. À frente vai um corpo magrinho de máscara e pedaços de sacola presos à roupa, gritando ou não aquela mesma cantiga e cobrindo os dias de silêncio do Urso-mor.

Severino Figueiredo

domingo, 28 de janeiro de 2018

Gentileza II (ou: Dia de ação de graças)

Era noite iniciada de domingo quando os dois subiram a escadinha do ônibus. Ambos em jeans, camisa aberta e sapatênis: vulgo estilo topzera, das pragas do mundo em voga. 

Um deles vira pro piloto: — Cabedelo né, motor? Quando chegar na parada do Fest Verão dá um salve aí pra nós, pode ser?

O motorista faz sim de cabeça, joga marcha e segue destino. Os dois passam cartão, roleta e se botam em pé, porque o ônibus vinha carregado: gente sentada no piso, nas coxas de conhecidos; o narrador, por exemplo, homem bom que só, cedia colo pras bolsas adjacentes. Foi quando sucedeu o mote do texto.

Grita o motorista: — Olha a parada do Fest aí!

— Valeu, moral! — volta um dos caras.

E o outro: — A do meio!

— Na de trás! Na de trás que é pra eu não ser chamado atenção na empresa.

Cruzaram em ira o vão de sovacos bem e mal levados, num esfrega-esfrega danado até saltarem pra fora do mundo. 

Desceram bem com meia camisa amassada, os topetinhos chochos e a moral encardida. O ônibus seguiu trajeto abrindo a porta do meio constantemente.

Severino Figueiredo 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 2: Buraco da porra

Trajeto Cabedelo-João Pessoa


I.

Estatisticamente, quatro linhas de ônibus circulam em Cabedelo. Cada uma com seu nível de alcance e comuns em proprietário. São elas: 522, 5103, 5104 e 5101.

A 522 é um apêndice: corre maior parte em Jampa e só pisa um bairro cabedelense, o irônico Renascer. A segunda cobre meia cidade e desova na integração do Bessa, bairro do leste pessoense adotado por muitos trabalhadores e estudantes do pequeno cabo. Já a 5104 é a mais recatada: ligação Jacaré-Intermares, dois flancos de uma mesma BR.

A derradeira linha é a principal, a Cabedelo Direto: sai do dedão do pé de Cabedelo, percorre a genitália, o umbigo e as ventas da cidade e vai bater noutro corpo — o centro de João Pessoa. Daqui, volta ao dedão, encravado que só.


II.

Apois dias atrás, no 5101, descobri significado distinto pra uma palavra bem conhecida por cá: BURACO. Tive o acaso de me acomodar na poltrona à frente das de dois motoristas. Recém largados, amassavam o papel que desempenhavam tempo antes: iam eram de braguilha aberta, a gola da camisa com aquele cheirinho bom que só de suor e o papo a todo gás.

(O cabra esquecer fones de ouvido é foda por isso, ouve o que não quer-querendo.)

E falavam de fome, do fiscal bom, do ruim, de uma morena que tinha entrado no ônibus mais cedo, dos outros colegas e do próprio ônibus — a quem chamam de carro.

— E ontem que Nastácio deixou um buraco da porra pra mim?
— Na Epitácio?
— Não, na Lagoa. Ele tava na minha frente, ó...
— Hãn!
— ...no meu carro vinha menos gente que no dele, dava pra passar e chegar na rodoviária primeiro, aí veio a porra de um sinal e me trancou, aquele de frente pra C&A, e Nastácio tome carreira. Daí, mais pra frente, outro sinal, o do shopping. Só sei que quando cheguei na rodoviária ele tinha passado fazia era tempo, gente que só a mulinga no ponto. Aí lá vem eu lotado, fiquei muito irado, visse...


III.

Buraco, na lábia do motorista, é a formação de uma grande distância entre um ônibus e outro, com os dois saídos da garagem em horários próximos - o que sobrecarrega um deles. Na lábia do usuário, buraco é rombo: no bolso. Contrapartida pra ouvir semiótica.


Severino Figueiredo 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

CRÔNICA DO CABEDELO 1: Turistas de Campina ou Flamengo vs Campinense

Cabedelo-PB



I.

Há um acordo entocado entre Cabedelo e Campina Grande: em dístico ingênuo, e desmetrificado, dá assim: "vem pro meu verão / que eu vou pro teu São João". Da rima consoante, o que é de Cabedelo verão; de Campina é João. Ou os (bote aqui o plural de João). Porque são muitos Joões na beira do nosso litoral, vindos da mesma Rainha da Borborema e iguais somente em uns trechos de vida. É sobre um desses trechos que quero digitar. Para tal, o plural passa a ser o João que em minha presença veraneia.


II.

Se é desnecessário apontar cabedelense no arrasta pé do Parque do Povo, fácil é colher campinense no costado daqui. Maioria em Camboinha, coincidentemente a maior praia de cá.

Um método de colheita mais ou menos exato é a vermelhidão. Seis em dez campinenses a desenvolvem – lá vêm os Patrick Estrela do meu agrado. Mais ou menos exato porque os nativos também coram, mas não têm surpresa: o diferencial. Pro campinense, toda beira de praia é a primeira gozada da vida; toda conchinha é boa de colecionar, de botar no cangote: culpa do costume em açude, porque o açude é introvertido, respeitador de margem, limitado que só. Daí que, vendo a pabulagem do mar, com esse chegar aos pés, o campinense desconstrói, alça um coque, veste saia e MAMÃE, LIBERDADE NESSE CARAI!

Claro, tem quem prefira a cadeirinha mais pra cima, o bucho coberto por pano, a água através da telinha – esse tipo é o indiferente, tá aqui por coerção, além de lascar o estereótipo-pauta deste texto.


III.

Por fim, assopro: os campinenses são bem vindos ao pequeno cabo. Além da conhecida movimentação econômica, trazem linguagem. Um mesmo, dia desses, vendo o autor do texto na areia dura, galgou: – Óia, o boy é rubro-negro, é de nós, parceiro, é de nós!

Trocou urubu por raposa.


Severino Figueiredo 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Dona M., de Areia a Cabedelo, 1980

(Publicado na revista Gueto, a 18/07/17)


Tando em linha o trem —
mole desde mesmo
ou: se de pau duro
para de onde veio —

beira, de entre bicho,
lagarta de pelo;
entre o que é de jogo:
falta, pré-escanteio;

meio ao de família,
vó no desmantelo:
buchuda do quinto,
suja de onde veio.


Severino Figueiredo 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Gentileza



Amália veio esticando o corpinho desde o título do texto: uma mão no cano amarelo pra aprumar o cabo dos pés e a outra correndo o ar em coisa de vôlei:

– A gente pequena é uma desgraça! Puxe aqui, meu fi.

O narrador fez sim de feição: danou o dedo na corda, sinal de parada.

– Brigada!


[freada.mp3]


– A do meio, motor!
– Lá atrás, senhora, lá atrás que é pra num me complicar.
– Putaria é essa, rapaz?
– Eu vou ser chamado atenção na empresa, moça, colabore.
– Eu tô ligada no seu colabore, se eu fosse gostosinha num instante abria.


 [risos.mp3]


A mulher correu de ira à porta traseira, desceu não sem meter tapa na mesa:

– Bicho fuleiro!

O ônibus seguiu viagem com a boca do meio abrindo vez em quando.


Severino Figueiredo 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Da cama ouve gatos sacudindo o telhado / vê que é ritual de pôr o pau no buraco

Cabedelo-PB


Gato é mais que cão
no rabo: tem de miss o de aceno;
pois se bota acima
mesmo de pau menor que o jumento.

Gato que do cão
difere quando de endurecendo;
maior tempo nega
a pelúcia do acasalamento.


Severino Figueiredo 

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Cabedelo em quadrão perguntado

Cabedelo-PB


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Vê dois filhos da terra em
peleja sobre o lugar:
um deles diz verso ímpar, 
o outro diz verso par.
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Cite bairro e rua escura:
em Ponta a do Cajueiro.
Quando chove dá lameiro?
tem vez que dá na cintura!
O prefeito é linha dura?
mais com quem lhe nega a mão.
E como vence eleição?
à base de pão trocado.
Cabedelo perguntado
e respondido em quadrão.

Lugar bom de jogar bola:
nas bandas do areal!
Tem canto que cheira mal?
mais do que prédio de escola.
E gente pedindo esmola?
vejo mais quem feche a mão!
Garagem para avião?
só pra navio carregado!
Cabedelo perguntado
e respondido em quadrão.

A cultura popular:
coco, nau catarineta!
Guerra, morte, muita treta?
tem uns pega pra capar.
Banco da gente sentar?
e rolar conversação!
Brega, samba, batidão?
Tudo um pouco misturado!
Cabedelo perguntado
e respondido em quadrão.

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A disputa segue adentro,
abandona o aí visto.
Chega em casa em sobressalto,
no tempo de escrever isto.
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Severino Figueiredo

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Gabiru

Hospital Colônia de Barbacena, por Luiz Alfredo


1.

Vê um Expedito virado na gota serena: – Ele, mainha, ele!
A mãe explode em voz: – Quê! Djabo é esse! De choro?
Logo afina; espana a coriza: – Deixe lá, ele, deixe lá que é estresse.
Beija Ditinho no ombro e sugere TV. Ao canto e de rodo na pia, vó abre nota de rodapé: “Isso é o povo na rua que faz raiva a ele e ele vem descontar no bichinho”.



2.

O supetão de detrás é de um meio de manhã abafada. Faltou a precedência:

Coisinha antes do primeiro travessão, Expedito fora ter mais o pai na garagem da casa; aí dá com o homem de língua no carro – uma cara de sumô, a zorba aparente. Moacir vê o garoto, mira uma caixa a escanteio e faz cumprimento de ordem: “Pega a chave-estrela ali pra mim!”. O menino vem com a de fenda. O outro solta os cachorros: “Você é leso, é? Eu falei a estrela, ora porra!”. Tinindo, Expedito voa de volta, no que inda ouve: – Chora mesmo! Tu é um homem ou um rato?

O boyzinho aterrissa na cozinha e clareia o início do texto.



3.

Das aspas da avó a esta tarde de pau mole, o quê? Cinco horas! Tempo de Expedito beber do tonel do ressentimento.

– Se comporte, viu? Obedeça vovó que mamãe e papai já chegam. Dê cheiro!

Cheiram-se sob buzina, no que a mulher grita para além portão: “Tô indo!”; e, normal, à sala: “Djabo apressado! Tchau, meu amor; tchau, D. Mariana, se ele aperrear me ligue”.

Mãe sai e deixa Ditinho num bico de biquara, o olho no entre cerâmicas, apombaiado. Beira quem varre à espera da pá – que vem. É ideia súbita: “Vou mostrar quem é o rato aqui!”. Deixa a sala: – Vou beber água.

Na cozinha, arria – discretíssimo! – a tampa do fogão: vê as formas de bolo. Lembrara-se de mama de dias atrás: “Guardo aqui mas é mesmo que nada, os peste vem e cagam tudo de novo”. Dá mão às bolinhas negras e mete o granulado na boca.
Meia centena de segundos depois, Expedito cai no chão – gorfa que só.


Severino Figueiredo

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Do quebra-mar de Cabedelo vê embarcações

Cabedelo-PB


De Costinha ao de cá,
lado de melhor pesca
que não sai do lugar,
a língua de aço língua
em um mais devagar:
o grande entre virilhas
que é moleira de mar.

Mesma xota molhada:
a barcaça de empeno
(pica torta encimada)
lambe em mais alvoroço
em que, junto à dedada,
dá por onda que à pedra
chega pra ser quebrada.


Severino Figueiredo 

sábado, 12 de agosto de 2017

Dominância em rima pobre II

Hospital Colônia de Barbacena, por Luiz Alfredo.


No que lavra a pasta cinza,
duro, o pedreiro se escora;
enxágua na testa o dedo –
de si ao cinza incorpora.
A enxada que, abrindo a massa,
cita João Cabral e traça
sempre de dentro pra fora.


Severino Figueiredo 

sábado, 22 de julho de 2017

ZOO

Hospital Colônia de Barbacena, por Luiz Alfredo



– Três, o arroz de hoje tava azedo... Quatro, Juarez nunca veio ver a gente... Cinco, sinto falta de Itaquaquecetuba...

Suspende o ditado. Curva-se, pesando: “Difícil essa agora!”. E em voz infantil: “Mas é pro bem do meu menininho”. Retoma. Gaiteio das aspas e de um colega da excursão, que devolve amarelo: "Logo eu!". Peço detalhes da gruta a fim de levá-la ao Instagram. Chama-se Gorete o único objeto da cela; aí já há dois anos, há um dá lições em movimento de cadeira de balanço: – Essa é das melhores alucinações que temos aqui – grifa o enfermeiro-guia – de um filhinho que morreu de bala perdida.

Hora e outra dá com olhos de pitomba em nosso grupo: “Vejam como é sabido! Escreve tudinho!”. Fizera parecido com o enfermeiro, mas via braços, hoje em camisa de lona. Daí o cultivo de barba: – Dá pra ver o rabinho da cicatriz aqui, ó.

Na grade seguinte, de um hominídeo demitido dos Correios, traço de vista uma parábola na estrutura do zoo – da sala da vez à anterior; nesta, dou com o colega do grupo, que se deixou ficar. Ouve leso um parágrafo de Gorete, de onde recolho, aproximando-me, uma linha: “Você conhece? Diz que eu tô esperando ele, moço, eu e o filho dele!”.

Desentendido, ofereço-me: – Tudo bem aí, Juarez?


Severino Figueiredo

segunda-feira, 17 de julho de 2017

CASA Nº 48

Hospital Colônia de Barbacena, por Luiz Alfredo.


Estoura: – Já?
...

Dou com a vista nele duas datas por mês – menos que isso, às vezes; mais? nem a pau. E dou com um dedo de gosto mais nove de pena: mãos pra empurrar o ferro que separa a rua do homem privado. Sei de Brandão – quê! – desde os três anos, que é a ponta do meu novelo de memórias.

Um livro desbotado da década de 30 que não instiga, segundo a médica do PSF.

É que lhe custa ser matraca, a maior parte da bronha ele bate com os olhos; só custeia aquele luxo ao grifar vitórias de rifa, mas logo as chispa com munheca de agouro – pesa morrer na posição que há muito conserva: troncho, quase emborcado, sobre um colchão d’água cedido pela Secretária de Bem Estar da cidade.

“Quero tá dormindo”, completa não em ritmo escrito.

O colchão d’água é em prol do mijo. Parcialmente entrevado, faz gato e sapato na cama-solteirão posta no escanteio da casa; na expressão de corpo já lida e com o travesseiro guiado ao norte do portão: que é pra dormir com os pés virados à rua, crença de mama.

“Nenhum mizera desse tem coragem de me limpar”, é como quebra silêncios.

Divide a casa com dois filhos e três agregados por eles. Por Anita, já metida em terra, foi buscar a parteira nove vezes; duas na mesma beca da mãe e as demais, que não as de início de parágrafo, lá fora: vivas apenas em datas seletas, através da conta que Brandão não tem no Facebook.

...

– Já, Vô, só vim ver como o senhor tava.
– Vá com deus, meu filho.



Deixada a casa nº 48, sorrio de volta aos meus, ao movimento de homens e mulheres; à inocência das crianças que me rodeiam a fim dos pés de velho que eu tenho nas costas.



Severino Figueiredo

domingo, 18 de junho de 2017

VII

Externo ao jabuti
todo caminho dista:
cortado pelo que há
de homem nesse animal

Próximo apenas
seu atalho de cuia:
na ameaça que o faz
provar do próprio pau


Severino Figueiredo

quinta-feira, 15 de junho de 2017

VI

Três sementes do garimpo
(dito fruto temporão):

Uma bem no pé da vista
(picareta firme em mão)

Duas de necessidade
(bronha após cada oração)


Severino Figueiredo

terça-feira, 13 de junho de 2017

V

Camuflado cão sem casa,
quando há folguedo no céu,
conserva no pau das patas
dura lição de quartel:
na selva a resma não goza
da afiação do papel.


Severino Figueiredo

sexta-feira, 9 de junho de 2017

IV

O tempo do cão sem casa
é deste verso: a língua d'água,
torta e à vista - não dentro
(qual sapato) mas físico e
animalesco pêndulo - vivendo
seu museu de cacetas lambidas.

O tempo do cão sem casa
(que não é nosso; nem
do próprio cão sem nada)
termina ao sabê-lo na borda
(cão sem prato) da rua:
naturalmente camuflado.


Severino Figueiredo

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Cabedelo II

Bem no meio de Camalaú
a pedra grande e clara
de Sebastião: podre e sem
pixo; quadrada; sozinha.

Não apenas bem no meio
de Camalaú, mas, sobretudo,
no umbigo da melhor rua de
Camalaú: a pedra de Sebasto,
de gente boa e mariana
somente dentro dela: pedra
sem vergonha de Camalaú.

O que ocorre na pedra feia
de Pedro (ou não) permanece
nela: pedra-moléstia, ambígua,
bem no meio da vista que dá
para a mecânica do ventríloquo.




Severino Figueiredo

sábado, 3 de junho de 2017

Dominância em rima pobre

Há quem não entenda
o maestro (ou desgoste
dos trejeitos de patrão)

À direita dos primeiros
violinos: mães dos que
soam em contramão

Ordenando atrito de
pratos vez e outra como
a ocultos tímpanos

(fundeados e quistos
pelas partículas épicas
com tiros de canhão)

Rápido e fino pássaro
à flauta; duro, rígido
pombo ao trompete

Alheio ao tronco largo
do cello: criança próxima
ao baixo de alta tensão

Há quem não entenda
o maestro e ainda o
imite com empolgação


Severino Figueiredo 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Cabedelo I

Na praia de Miramar
difícil conduzir a bola
num chão de sargaço

Quem o mar rejeita
(por hora) o homem
ajusta em lesas teorias

É o coentro da Tanzânia
falam os mais velhos
pescadores daqui

Bom para o grude dos nossos
dias de luta indicam
senhoras do ramo de siri

Na praia de Miramar
casebres avançam ao mar
que avança de lá para cá

Ao redor do piso-sal
da Miramar: uma gente
pró-natureza julga

um cão que tomando
lama não pensa no futuro


Severino Figueiredo

terça-feira, 30 de maio de 2017

Do outro lado da grade

Cão de rua late e quem
não é de rua
é espanto e aflição

Cão de rua bate com
a venta na merda
e murcha lembrando
essa eu já cheirei

(é do tony filho
de uma pequinês
marrom burguesa)

O maior inimigo
do cão de rua
exceto a rua
que o detém
é o fundo do olho
de alguém
que o deixa mais
ou menos cão de rua

Dentro de um só
cão de rua
dezenas de cães
de garagem
que ao vê-lo dono
da passagem
refletem sobre a vida
que têm


Severino Figueiredo

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Prioridade

O padrão do vento na cortina
maleável, contorcendo-a
como o vento faz da curva
ambientação, lembra as falésias
em inanição que beiram este mar.

Dos tempos de infância para cá
há mais geografia em meu cansaço
que nas falésias anti-duração
que engrossam o mesmo mar.

Sobre o grosso do farelo-mar
uma canoa entupida de janta.


Severino Figueiredo

sexta-feira, 19 de maio de 2017

A defesa da propriedade pelo cão

Sombra digna
a que acolhe
o patrão

O meio
d'encontrar-se ouvido
(isto é, forjando-se)
leva
à situação
de tomar por inimigo
quem explica-lhe
o portão


Severino Figueiredo

terça-feira, 16 de maio de 2017

III

Dentro da solidão:
seu plural;
aquilo da pré-bomba
- silêncio incomum;
bola de pelo correndo
no pique pra que seja um
dentre os vestígios
do jogral.

Dentro da solidão
um canibal
dorme rangendo os dentes.


Severino Figueiredo

terça-feira, 2 de maio de 2017

II

os dias em que me vejo
na tábua das marés
são os piores dias
os dias em que me vejo
na tábua das marés

a dor do previsível
é a dor das gentes
deslumbradas
com as próprias dores 
previsíveis

o foda de se ver
na tábua das marés
e nas gentes
e entre
os dentes das gentes
é não confiar
na feição da vítima
quando esta diz

Ele tem um plano pra você
pagamento à vista
no crédito
ou carnê


Severino Figueiredo

segunda-feira, 1 de maio de 2017

I

houve tempo de trem
de carga em cabedelo
(milho cevada dinheiro)
cortando a rua
principal do centro

o tempo de trem
de carga em cabedelo

era o tempo de passar tempo
trepado às costas de ferro
do trem de carga que vinha
do porto de cabedelo

foi no tempo de trem
de carga em cabedelo

o maior desastre de cabedelo
o corpo de joão esmagado
pelo trem de carga de cabedelo

desde então não houve mais tempo
de trem de carga em cabedelo

era preciso algo mais pra levar
tanto milho cevada dinheiro


Severino Figueiredo